8/10/2006

Ronda pela Imprensa

Saca-rabos Country

Aluguei uma casa no campo. Tecnicamente, era um monte alentejano, embora numa versão tão radical que dificilmente se enquadrava no imaginário da "casa de férias". Não tinha água nem electricidade, nem acessos, nem tecto, nem casa de banho, nem rede de telemóvel. Era uma casa selvagem. Cinco contos por mês. Único motivo deste preço irrecusável: a solidão do senhor Inácio. Há muito que os vizinhos tinham abandonado a região, ou a vida. Num raio de dezenas de quilómetros não se vislumbrava vivalma. Nem os seus vestígios.

Da minha casa viam-se montes verdes, um riacho e um céu azul-cobalto, e eu bem podia passar dias inteiros sentado numa cadeira de baloiço a perscrutar todos os pormenores da paisagem: não, não havia, em todo o horizonte, o mínimo sinal de que a civilização humana alguma vez tivesse existido.

Passar ali alguns dias era uma experiência quase mística, embora não destituída de sacrifício: alguém se lembra do que é viver sem água nem luz? Sem frigorífico, não é possível manter água nem alimentos frescos. Sem casa de banho, vamos ficando infectos e sebentos. Nas noites intermináveis, o único passatempo era observar as estrelas que ali, de tão intensas, se tornavam próximas e ameaçadoras, e ouvir a sinfonia da Natureza: o uivo dos saca-rabos, uma espécie de lince comprido, de longa cauda felpuda, que vive nos montes e ataca os galinheiros, e a orgia gastro-domiciliária do caruncho. Deitado a olhar os barrotes que sustentavam o telhado, passei noites em claro a ouvir o ruído de serrote de milhares de bichos a devorarem-me a casa de férias.

Um dia, ganhei coragem e caminhei até à residência do meu senhorio, na outra encosta do monte, para lhe propor a construção de uma casa de banho. Inácio, um homem rico, proprietário de muitos hectares de sobreiral, e que também não tinha casa de banho, respondeu: "Para quê? Para cagar sempre no mesmo sítio?"

Enfim, não era um local para onde se convidasse alguém para um fim-de-semana. Só amigos muito especiais como o alemão Christof, que chegava a vir de propósito da sofisticada Munique para pernoitar no que ele chamava o Saca-Rabos Country.

Era a ideia (mais do que a realidade) daquele lugar absolutamente selvagem que o fascinava. Chegava lá, olhava horrorizado para dentro da casa, desdobrava o saco-cama e dormia ao relento. No dia seguinte, queria regressar a Lisboa. Eu também não aguentava muito tempo em Saca-Rabos Country.

Mal chegava, só pensava em fugir. Mas depois, apenas sonhava com voltar. Uma vez cheguei à noite, sozinho, à minha casa de férias. Extenuado, deitei-me. Mas pouco depois fui acordado por um ruído no exterior. Pareciam gemidos. Abri a porta, e o meu coração bateu mais forte. Não havia qualquer dúvida, via-se perfeitamente, com o luar: eram saca-rabos. Pelo menos uns dez, estacados em redor da casa, fitando-me. De súbito, dois deles avançaram. Instintivamente, afastei-me da porta e eles entraram. Segundos depois, cada um trazia na boca duas crias. No momento seguinte tinham todos desaparecido entre os arbustos.

Quando acordei, de manhã cedo, era impossível saber se aquilo fora um sonho. Entrei no carro, abandonei a casa e nunca mais lá voltei. Mas que saudades de Saca-Rabos Country.

Paulo Moura - in Público (06.08.2006)

2 Comments:

Blogger ringthane said...

Daí duvido...

quinta ago 10, 10:35:00 da tarde  
Blogger ouroboro13 said...

Passava lá sete dias.

quinta ago 10, 10:51:00 da tarde  

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