5/04/2006

Manufacturamos Realidades

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.

Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua a ser a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.

Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego

3 Comments:

Blogger ringthane said...

Eu nao atino com o Soares. Alias com nenhum Soares, nem mesmo esse, veja-se bem! OK, bela composição. Sim, bom cavalo, dignissima pacaça e prateleira ausomne. Mesmo assim.

quinta mai 04, 09:45:00 da tarde  
Blogger ouroboro13 said...

Mas é de facto superior. A ver se meto aqui o Tabacaria.

sexta mai 05, 09:38:00 da manhã  
Blogger ringthane said...

AH, Campos sim.

sexta mai 05, 11:07:00 da tarde  

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